segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O Socialismo é futuro da África

Congresso de Negros e Negras do Brasil: Conjuntura InternacionalO Socialismo é futuro da África Alexandre Braga*1-A humanidade nasceu na África. Numa época em que não havia racismo, não havia a opressão do homem sobre a mulher e nem havia a divisão social do trabalho. Nessa época todos pertenciam à mesma gens, os alimentos eram fornecidos in natura e a propriedade era comunitária. Vivíamos então no regime comunista primitivo. Por causa do desenvolvimento das técnicas da agricultura ocorreu uma significativa melhora na produção de alimentos e nem todos precisaram mais trabalhar. Estes utilizaram o tempo vago para se dedicarem a outras atividades especializadas dando origem à primeira divisão social entre as classes, pois agora apareceram classes e tarefas distintas das da tribo. Essa melhoria nas condições de produção dos alimentos alterou profundamente a estrutura social da tribo. Daí em diante jamais a humanidade voltaria a conviver sem as desigualdades de raça, gênero e classe. E a África sofreu muito por ter em seu solo todas as riquezas necessárias para a reprodução do capital. Foi roubada e maltratada pelas mais variadas nações e povos, sendo que hoje nenhum dos devedores lhe pagou a dívida, que agora passou a ser uma dívida social, monetária e política. 2- Na África também nasceram as principais contribuições do homem no campo da ciência, filosofia, medicina, engenharia e matemática, ambos saberes foram usurpados pelos invasores dos quatros cantos do mundo, que autoproclamaram como seus o pensamento e a prática seculares erguida por gerações e gerações na Núbia, Axum, Daomé. Tais ensinamentos permaneceram por gerações e séculos na forma de tradição oral, até a conquista do Egito, negro e antigo, por Alexandre Magno. O movimento filosófico comandado por Aristóteles e sua escola compilaram os ensinamentos egípcios e afirmaram ser gregos. As Escolas de Mistérios, que hoje conhecemos como Maçonaria, Rosa Cruz entre outras, é invenção africana tão antiga quanto o próprio continente. Aliás, foi no Egito que a humanidade teve uma de suas mais evoluídas civilizações tendo a frente a liderança do faraó Akhenaton. Mas todo o processo societário e histórico posterior foi marcado por esse grande furto ao solo africano. Usaram argumentos falsificados e mentirosos para continuar o roubo e ninguém ser punido ou criticado por essa tamanha brutalidade. As relações internacionais acontecem sob esse signo: um grupo de países submeteu economicamente outro grupo de países. 3-Nisso, no campo internacional e apesar da retomada do enfrentamento ao neoliberalismo, ainda precisamos avançar para romper com a nova ordem social imposta pelas nações mais ricas e desenvolvidas. Basta lembrar que após importantes vitórias contra o colonialismo no continente africano, só para citar esse exemplo, retomam ao poder central práticas que antes foram derrotadas pelo socialismo. Em vários países africanos governos e políticas conservadoras voltam ao cenário local, provocando guerra fratricida a serviço do imperialismo.4-Por isso, mais do que constatar essa retomada neoliberal no continente, precisamos impulsionar uma onda de resistência que traga o povo e as forças políticas para mais uma etapa da batalha contra a exploração. Ou seja, tornou-se necessário a construção de um instrumento que dialogue com todos os lutadores sociais e revolucionários para pôr fim definitivo a essa agenda conservadora. 5-Contribui para isso o fato de que já temos motivos concretos para essa construção, pois na América Latina, como fez Cuba, forças progressistas comprometidas com a igualdade social sagraram-se vitoriosas em seus países, como Bolívia e Venezuela, duas nações cujo poder é dirigido por indígenas. O Movimento Negro da região sempre foi um movimento forte no Chile, Equador, Argentina. Hoje, Hugo Chavez dá prosseguimento na Venezuela ao projeto iniciado pelos negros ex-cativos e que chegaram ao poder proclamando Rei Bayano e a liberdade dos africanos no século XVIII. Na Colômbia a vitória foi de Rei Benko Bioho, no ano de 1600, e no Uruguai foi constituído o Partido Negro Autoctóno, além de incontáveis experiências revolucionárias não catalogadas pela historiografia, como a derrota de Napoleão Bonaparte para o negro Toussaint L`Overture no Haiti de 1793. 5a-Mas precisamos estar alertas. George Bush, o inimigo da humanidade, usando o poder militar dos Estados Unidos, ameaça diariamente guerrear quem pensa e age diferente daquilo pregado pelo Consenso de Washington. Recentemente os alvos de sua tirania recaem sobre a heróica Coréia do Norte, brava nação socialista da Ásia. Os casos da Palestina, Iraque e Líbano demonstram claramente como os Estados Unidos conseguem articular diplomaticamente para que seus interesses não sejam contrariados. E organismos como a ONU-Organização das Nações Unidas, Fundação Ford e OMC-Organização Mundial do Comércio volta e meia dão guarida a esses interesses. E de novo usaremos o exemplo da África para mostrar como isso acontece na prática: a indústria farmacêutica, visando somente os lucros financeiros, comete verdadeiro crime lesa-humanidade contra milhares de pessoas africanas, e ninguém ousou travar esse debate com força suficiente para mudar essa situação.5b Após o genocídio de populações inteiras, a dominação, de novo feitio *imperialista-capitalista* abarca os campos político, econômico, cultural e militar, onde os destinos do continente africano é traçado fora da África, em reuniões e círculos financeiros organizados pela ONU e FMI-Fundo Monetário Internacional. Cuja desestabilização da região africana é a principal tarefa da diplomacia, tanto de sangue quanto de guerra fria, das potências européias, muitas delas ex-colonizadoras daÁfrica.5b-Tais potências aplicam um receituário neoliberal sob as nações africanas. E estas terapias neoliberais destruíram o contrato social oriundo das independências pós-colonialismo. Cuja democratização ampliou o espaço político, mas de modo muitíssimo incompleto. A tutela das instituições financeiras internacionais sobre a África limitou essa democratização, ou seja, a África se desgarrou das amarras coloniais para cair nos braços da ditadura do capital. Exemplifica isso as recentes manobras visando o *cancelamento* de *dívidas* dos países africanos que em contrapartida exigem-se-lhes políticas condicionadas à adoção de privatizações e abertura dos mercados africanos à *concorrência* mundial. Os únicos beneficiados pelas guerras tribais são as potências capitalistas da Europa e América do Norte. O genocídio ocorrido em 1994 em Ruanda, cujo grau de cumplicidade envolve múltiplos agentes como a França, Bélgica, membros da Igreja Católica e do Banco Mundial; foram os créditos desse banco que compraram as armas e enxadas empregados na matança de 1 milhão de ruandeses, comprova isso. O alerta quanto às ações nocivas da presença dessas potências em solo africano vem também da África do Sul, caso sintomático dos estragos feitos à África pelos imperialismos e seus organismos. Incapaz de enfrentar a desigualdade e rendido às políticas do Banco Mundial e FMI, o Congresso Nacional Africano-CNA, partido de Nelson Mandela, vive riscos reais de dissidência. Se antes a sociedade sul-africana era dividida racialmente, hoje está intrinsecamente estratificada em classes sociais. O CNA tinha um programa econômico pautado na luta contra essas desigualdades sociais, cuja base sociológica refletia a influencia do Partido Comunista Sul-Africano na coalizão que elegeu Mandela. Agora o governo segue um receituário neoliberal. Essa mudança de rota provoca críticas de setores alinhados ao governo como os sindicatos de trabalhadores e a classe média. A África do Sul não conseguiu mudar a situação no campo, onde 87% das terras são propriedade de fazendeiros brancos da época do Apartheid,entre outros impasses.6-Aproveitando-se dessa brecha, os Estados Unidos aumentaram significamente sua presença militar na região. O pretexto foi a guerra contra o terrorismo da Al Quaida ( na Somália e Sudão), mas os seus reais interesses estão no petróleo de Angola e Nigéria e outras riquezas do continente negro. Os Estados Unidos são dependentes de várias matérias-primas que são abundantes na África: manganês (usado na produção de aço), cobalto, em que 50% das reservas mundiais estão concentradas no Zaire e Zâmbia, cromo ( que é usado nas ligas aeronáuticas) e 98% das reservas mundiais estão no Zimbábue e África do Sul, além de ouro, antimônio, flúor e os diamantes industriais. Para dar manutenção a esses interesses, Washington criou, em 1996, a Força de Resposta às Crises Africanas (ACRF), hoje substituída pela Acri - African Crisis Response Initiative. A Acri teve como missão: a *manutenção da paz* e*ajuda humanitária*. Entre julho de 1997 e maio de 2000, a Acri gastou 30 milhões de dólares para formar batalhões leais aos Estados Unidos no Senegal, Uganda, Costa do Marfim, entre outros. Em 2002 Bush transformou a Acri em ACOTA - Africa Cotengency Operations Trainning Assistance, cuja estratégica está alicerçada em 2 eixos: de um lado, dar garantia de exploração ilimitada dos mercados, recursos e fontes de energia, de outro, dar garantia de segurança no envio dessas matérias-primas aos Estados Unidos.7-De forma não muito diferente agem Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Portugal e outros países europeus na exploração mercantilista da África.8-Portanto, a luta contra os imperialismos (norte-americano e europeu) requer uma nova repactuação multipolar para a qual a esquerda africana joga papel fundamental e o fortalecimento da União Africana -UA- é o único caminho para criar uma alternativa macroeconômica que se contraponha ao neoliberalismo na região.9-Nisso, Cuba, Brasil e Venezuela podem e devem fornecer a máxima solidariedade para o êxito da edificação dessa grande África, nascida das lutas do passado e pronta para enfrentar os desafios geopolíticos do século XXI. Em que a União Africana precisa ser a referência principal desse enfrentamento e da contraposição à onda conservadora que toma conta do continente africano onde os novos governos eleitos desses países vem funcionando como correias de transmissão e apêndices dos imperialismos.10- Dessa forma recomendamos que União Africana adote uma postura mais impulsionadora no sentido de favorecer a balança comercial entre os próprios países desse bloco, uma vez que continuamos a registrar os mesmos graus de exploração do que melhor tem a economia africana pelas potências imperialistas, agora sob a batuta da UE-União Européia,OMC-FMI. Haja vista que a África responde por apenas 1% do PIB mundial e 2% das transações comerciais no mundo. Para isso é preciso potencializar a SADC-Comunidade Para o Desenvolvimento da África Austral, criada em 1980 e que tem um PIB de 216 bilhões de dólares, fortalecendo e filiando novos países africanos a essa comunidade, inclusive com a adesão do Marrocos. Todavia a SADC contar apenas com 14 países-membros, a África como um todo, possui um solo riquíssimo em recursos minerais como petróleo, ouro, diamante, urânio, carvão e gás natural. Tais recursos, em vez de fomentar o desenvolvimento sócio-econômico da região, motivou a que diversas nações do globo invadissem e saqueassem os países africanos, ora implantando e financiando regimes racistas e ditatoriais, ora praticando e incentivando o genocídio inter-tribal, através de guerras contra os povos donos dessas riquezas, sempre com a cumplicidade e omissão da comunidade internacional, cujos episódios atuais são os conflitos no Sudão, Somália, Etiópia. Enquanto a África se guerreia, Estados Unidos e demais paises da Europa lucram e crescem economicamente comercializando essas riquezas e retroalimentando, pelo financiamento de armas, governos e regimes, as proto-rivalidades entre os irmãos africanos. 11-Quanto ao Oriente Médio, somos favoráveis à autodeterminação dos povos. Reconhecemos o Estado de Israel e o Estado da Palestina, e suas organizações políticas soberanas e autônomas como única solução pacífica a essa guerra fratricida.Nos somamos à esquerda israelense contra o atual governo racista e de direita ortodoxa, pois o Estado de Israel em conluio com os Estados Unidos usam métodos nazistas para agredir e guerrear os demais povos da região. No entanto, avaliamos como positiva a alia de 1985 onde 14 mil judeus negros da Etiópia foram levados para Israel fugidos das guerras tribais, fome e miséria que assola o país etíope.12- No plano internacional vale ressaltar que a influência negra na Espanha e Portugal, pela presença moura e sarracena por quase 10 séculos, é maior que a influência negra no Brasil; que se deu a partir de 1530 aos dias de hoje.13-Finalizo resgatando a contribuição de Josep Stalin, ex-líder da URSS, para a luta de emancipação do negro. Stalin foi o primeiro chefe de Estado a condenar, em 1936, a invasão da Abissínia, hoje Etiópia, pelas tropas fascistas italianas.Em 1937 a Internacional Comunista, secretariada por Stalin, financia o atleta negro Paul Robenson na tentativa de fundar a República da Nova África, próximo ao Mississipi nos Estados Unidos. Apesar das primeiras e poucas experiências, com seus erros e acertos, o socialismo mostrou-se superior ao capitalismo no fornecimento de direitos humanos e qualidade de vida para os povos.Propomos:1-Política de desenvolvimento sócio-econômico entre Brasil, Venezuela e Cuba com os paises africanos, potencializando a capacidade econômica da União Africana.2-Criar a ponte aérea ligando Recife no Brasil e Dakar no Senegal.3-Recomendar ao Estado Brasileiro prioridade nas relações com a União Africana, bem como o fortalecimento desta nas relações exteriores entre Brasil e continente africano.4-Pelo pagamento da dívida histórica que as potências capitalistas têm com a África.5-Que o Brasil lidere campanha internacional contra a prática da mutilação genital feminina, principalmente em países da África.6-Pela imediata retirada das tropas norte-americanas do continente africano.7-O Socialismo é o futuro da África.

*Alexandre Braga-militante da Unegro-MG
031-96561564
bragafilosofia@yahoo.com.br

sábado, 15 de setembro de 2007

SEMINARIO PREPARATORIO DO CONGRESSO DE NEGROS E NEGRAS DO BRASIL

19/09 QUARTA FEIRA

18:00 ABERTURA
18:05 PROJETO POLITICO DO POVO NEGRO PARA O BRASIL
COM O COORENADOR GERL DA UNEGRO PE

19:00 REPARAÇÕES X AÇÕES AFIRMATIVAS: ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL
COM A COORDENADARA DE SAUDE DA POPULAÇÃO NEGRA E UMA DAS FUNDADORAS DA UNEGRO- -PE

20:00 ELEIÇÃO DOS DELEGADOS
VAMOS ELEGER OS DELEGADOS D UNEGRO
LOCAL: SINTRAJUF - RUA DO POMBAL, PROX AO SENAC DA AV. VISCONDE DE SUASSUNA SANTO AMARO - RECIFE

Princípios norteadores para elaboração do Projeto Político da População Negra para o Brasil

Por Edson França*

Parcela significativa do movimento negro brasileiro se encontra em processo congressual, após um rico período de negociações, duas Assembléias Nacionais marcaram esse momento: no dia 13 de janeiro, no Rio de Janeiro delegação de nove estados reuniram para chamar o Conneb – Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil, estabelecer o objetivo e comando do processo. Nos dias 20, 21 e 22 de abril, em Belo Horizonte, com a presença de delegados de quase todas entidades/articulações nacionais e 23 estados, cobrindo todas as regiões do Brasil, realizou-se o Ato de Lançamento do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil, além da Assembléia Nacional que aprovou o Regimento Interno do Conneb. O objetivo estratégico do Conneb é elaborar um Projeto Político da População Negra para o Brasil, para isso estabeleceu regimentalmente o temário, que será discutido em quatro Assembléias Nacionais em São Paulo, Porto Alegre, Belém e Salvador, respectivamente, da seguinte forma: São Paulo – diagnóstico; Porto Alegre – Políticas Públicas de superação do Racismo no Brasil e no Mundo; Belém – Ações Políticas e Plano de Lutas; Salvador – organização e documento final.

Considerando que toda essa estrutura organizativa e metodológica foi elaborada por muitas cabeças num período de quase seis anos; considerando o coletivo de entidades, lideranças que aderiram a proposta do congresso; algumas provocações são necessárias antes de entrarmos no mérito, ou no conteúdo do projeto. Devemos resistir a tentação de formular “por cima” sem a presença de todos os negros e negras que estão se organizando para o Conneb. Por isso o grande desafio desse momento é refletir o método que pode ser utilizado para elaboração do projeto. Com objetivo de contribuir preliminarmente com o método compreendo que seja importante delinear quais valores e princípios fundamentais que poderão ser norteadores na elaboração do Projeto Político da População Negra para o Brasil. Compreendo que sem esses norteadores teremos dificuldades de elaborar algo com originalidade e em consonância com a experiência e necessidade da população negra; mais ainda corremos risco de elaborar cópias mal feitas de programas de partidos, ou cópias mal feita de experiências internacionais. Além do risco de afogarmos em falsas polêmicas, produzir ambiguidades e contradições desnecessárias, não conseguirmos evitar “choques de verdades” entre pessoas, organizações e forças políticas mobilizadas na construção do Conneb.

Vale lembrar que outros elementos essenciais, não necessariamente compreendidos como princípios e valores, deverão se incorporar na reflexão, são parte integrante do método para confecção do Projeto Político da População Negra para o Brasil, destaco dois: factibilidade, ou seja, de possível implementação, sob pena de elaborar algo distante de nossa capacidade de viabilizar-lo e colocar em prática as propostas contidas no projeto, temos que evitar que o projeto se constitua em um ótimo documento de boas intenções, mas sem capacidade de construir cenários positivos para população negra; interatividade, que dialogue com os anseios emergente, imediato, cotidiano, perceptível da maioria população brasileira, especialmente da negra; capacidade de acumular forças, de estabelecer alianças (prioritariamente com a classe operária, onde se encontra a maioria das mulheres e homens negros), que tenha capacidade de interagir, fazer mediações com nossos sonhos e utopías. Temos que ter capacidade de chamar a população negra a buscar algo que lhe diz respeito, sem negar a necessária ruptura com o Estado capitalista.

Precisamos de um projeto que possa garantir direitos fundamentais: como paz, vida, família, liberdade, religião, trabalho, saúde, educação, habitação, prosperidade, oportunidade, dentre outros. Nosso fim estratégico é contribuir para construção de um país socialista, compreendendo que o capitalismo é antítese de liberdade, justiça, direito e paz. Como forma de caminharmos para uma nova sociedade devemos democratizar todos os espaços de sociabilidade e de exercício de poder, impor a presença das pessoas independente de raça, credo e convicção ideológica em todos lugares que interessam a coletividade. Segue alguns princípios, devemos no processo de debate agregar outros, nesse texto estou preocupado em fixar o método.

Democracia: a luta pela democracia tem caráter estratégico para populações vitimizadas pelo racismo, pobreza, violência, que se encontram em estágio de recuo na luta de classes. A democracia permite a organização dos oprimidos, o debate público, correção de rumos, conquista de adesão, corações e mentes. Por isso devemos primar por um projeto democrático. Falta elaborarmos que conceito de democracia devemos agregar ao nosso projeto, mas certamente não será a democracia em que o derrotado eleitoralmente perde o direito de interferir nos processos políticos; não será a democracia que desconsidere a busca do convencimento, da honradez, da integridade da palavra, valores tão caro aos povos africanos; não será a democracia que elimine ou sufoque as minorias sociais e políticas. Temos que desocidentalizar esse conceito, ou melhor, deseurocentralizar, buscando elementos e valores africanos capaz de substancializá-lo, de dar um sentido que açambarque o melhor da experiência universal humana.

Universalidade: esse princípio se coloca devido a certeza de que os não-bancos são maioria no Brasil, mais ainda, os não-brancos são maioria universal, por isso não justifica estarem a margem da riqueza mundial em razão da concentração de poder e riqueza nas mãos de uma minúscula elite branca. No Brasil, segundo o IPEA, os auto-declarados negros compõe 49,6% da população – houve um crescimento de cinco dígitos, fruto do bem sucedido trabalho do movimento negro, pois o ataque mais feroz do racismo foi na identidade do negro, para dividi-lo e garantir a dominação -, concentrados majoritariamente dentre os pobres. A experiência dos africanos e seus descendentes como povos oprimidos historicamente na África e na diáspora os credencia e os obriga a lutar contra todas as formas de opressão. É necessária construir a convicção que os povos negros serão aqueles que se libertarão e ao mesmo tempo emanciparão todos os povos oprimidos. A história provou a capacidade dos negros enfrentar e superar as adversidades sem corromper sua humanidade, isso os qualificou e temperou para essa tarefa. O Projeto da População Negra Para o Brasil deverá atuar universalmente contra a opressão. O Estado brasileiro se nega peremptoriamente universalizar suas intervenções, sempre priorizou a elite e aqueles que menos precisam, como consequência se agiganta o fosso social entre pobres e ricos, brancos e negros. É possível redirecionar as prioridades do Estado brasileiro e garantir a efetividade do princípio da universalidade nos investimentos públicos, o Brasil produz riquezas e estabelece trocas capaz de suprir indistintamente todas as necessidades humanas de seu povo. Compreendendo que universalizar não é dar tudo a todos, mas dar equanimemente, em outras palavras “de cada um sua capacidade e a cada um sua necessidade”. Universalização equânime é um princípio revolucionário, anti-capitalista e anti-racista, pois projeto político de maioria numérica, econômica e política voltado exclusivamente para uma raça foi pronunciadadmente negativa e geradora das maiores calamidades históricas (Jim Crow nos Estados Unidos, apartheid na África do Sul, as leis de Nuremberg na Alemanha nazista e a faxina étinica em Ruanda onde a maioria hutus perpetrou um genocídio contra a minoria tutsis, não aceito o comum argumento de alguns militantes do movimento negro de que foi culpa dos brancos belgas enão da elite hutus que brigava pela conquista do poder político em Ruanda). Esse conceito aceita ações afrimativas, políticas específicas focalizadas, que vem sendo cobradas do poder público pelo movimento negro brasileiro.

Equidade: segundo o dicionário Aurélio, “equidade é a disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um”. Complementando esse significado, o debate das ações afirmativas convencionou que “devemos dar tratamento desigual aos desiguais a fim de atingir a igualdade”. O significado atribuido a palavra e a frase que sustenta as ações afirmativas são auto-explicativas, temos que focalizar as intervenções do Estado buscando superar as desigualdades entre as pessoas, entre os gêneros, entre as regiões geográficas, entre as gerações. A eqüidade exige altruísmo, um valor comum nas sociedades africanas não contaminadas pela modernidade, pela ganância ou pelo ódio (como os hutus em Ruanda), mas contraditório com o capitalismo e com as sociedades desenvolvidas. Terá a medida correta de altruísmo o projeto que o movimento negro brasileiro está elaborando?

Anti-Racismo: esse princípio é fundamental, sintetiza a experiência histórica do negro, hegemonizar a inspiração anti-racista no pensamento humano será sua maior obra, pois desde os primórdios da colonização das américas os povos negros sofrem as duras consequências do racismo. Sentem na pele que o racismo não é bom. Não há povo que tão duramente sofreu e sofre no dia-a-dia as agruras do racismo, do preconceito e da discriminação racial. Fundamentalmente no Projeto Político da População Negra para o Brasil não haverá espaços para nenhuma forma de discriminação e preconceito racial e o racismo será nosso alvo prioritário. Não aprofundaremos a divisão entre brancos e negro, queremos um Brasil uno, desenvolvido, capaz de oferecer segurança ao seu povo, por isso não haverá racismo, não haverá nenhuma forma de revanchismo, trabalhamos para edificar um mundo que reine a solidariedade, a paz e o socialismo.

Hegemonia: esse é um princípio político-operacional do Projeto Político da População Negra para o Brasil, pois sem capacidade de disputar hegemonia na atual ordem os defensores do projeto que confeccionaremos não acumularão forças políticas capaz de tirar do papel, toda construção do Conneb, prevemos mobilização do movimento negro em todos estados e grandes municípios que desembocará em uma caravana à Brasília, após colherem 1,3 milhões de assinaturas de apoio ao projeto transformar-lo num projeto de lei de iniciativa populae e entregar ao Presidente da República e aos Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Mesmo com todo esse empreendimento sem a disputa da hegemonia nosso esforço será disfuncional. Daí a necessidade imperiosa da formação de quadros políticos para somar-se a luta anti-racista, de garantir educação para população negra e pobre, presença de negras e negros nos partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais. Das iniciativas das organizações, forças e ativistas do movimento negro continuarem em curso durante a construção do Conneb, precisamos que o congresso ocorra com aquecimento total da luta do movimento negro – mesmo que dissociada organicamente ao congresso. Daí a obrigatoriedade do estabelecimento de alianças com outros setores e segmentos sociais, especialmente com os trabalhadore. Daí a importância das políticas públicas e da capacidade de gradualmente obter pequenas conquistas que darão substância para luta estratégica da população negra – que é a derrota do racismo e do estado burguês, capitalista, reacionário, racista e anti-democrático. Sabemos que a emancipação da população negra brasileira acarretará perda dos previlégios de uma minoria branca, irão reagir. Para evitar derrotas e traumas incuráveis, temos que nos posicionar com nossos aliados a altura de vencer o ódio e a força da elite racista brasileira. Por isso o Projeto Político da População Negra para o Brasil dirá o que queremos e como atingirmos o que queremos.

*Edson França: Historiador e Coordenador Geral da Unegro