segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Renan: A teoria da sobra


por Especial Hip-Hop*

Sobrou pra nós de novo! (Vai veno)

Os ricos tem comida sobrando, tem casa sobrando, aliás sobrados sobrando!
Tem grana sobrando, o Brasil tem terra sobrando, mas será que não dá pra todos?
Dá! Dá e ainda sobra! O que não sobra é vontade política.
Veja o caso dos pobres: tem vontade sobrando, coragem sobrando, filhos sobrando, sobrinhos sobrando, sobrinhas sobrando, saúde e educação faltando.

Pra nós nunca sobra verba, nunca sobra tempo
Pra gente só sobra a sobra.
Sempre ficamos de fora, ''sobramos''
As vezes (mas só as vezes) sonhamos
Pra nós sobraram as drogas a fome e as armas
Pra eles sobraram a violência e o medo (bem feito!)
Também né, nunca deixaram sobrar nada de bom pra nós....
E quando a polícia chegar você já sabe: apanha quem sobrar na frente, sobra pra nós sempre
Desse jeito, não vai sobrar um pra contar história.

Renan - integrante do grupo Inquérito, cursa e leciona geografia.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

21 de janeiro"Dia nacional de combate à intolerância religiosa

Clever Alves Machado

A perseguição ou intolerância religiosa sempre existiu no decorrer da
História. Segunda a Bíblia, Caim foi motivado a assassinar Abel por
causa das diferenças religiosas. Caim não gostou de Deus ter aprovado
o sacrifício oferecido por Abel e de não ter encarado com favor o
seu. Caim ficou irado, e, por fim, assassinou seu irmão, conforme
relatado em Génesis 4:3-8. Visto que a Bíblia apresenta estes
personagens como os primeiros filhos do primeiro casal, Adão e Eva,
alguns têm considerado este relato como o primeiro episódio histórico
de intolerância religiosa.

No decorrer dos séculos, as principais religiões têm perseguido umas
às outras, à medida que cada uma julga ameaçado o seu controle e
influência sobre o povo ou em nome da verdade infalível, e da
salvação da alma, justificam a perseguição e assassínio de outros. Em
alguns países, os regimes políticos são manobrados pelas religiões
dominantes para conseguir o silêncio ou mesmo a eliminação de grupos
religiosos minoritários. Segundo o escritor irlandês Jonathan
Swift "temos bastante religião para nos odiarmos, mas não o
suficiente para nos amarmos."

Segundo a ONU o combate à intolerância passa, em parte, por garantias
jurídicas. O direito à liberdade de culto e o direito a não-
discriminação por motivos religiosos está há muito consagrados no
direito internacional, e muito países incorporaram-nos na sua
legislação nacional como é o caso do Brasil.

Lamentavelmente mesmo tendo uma legislação que combate a intolerância
religiosa, não há no Brasil, a tolerância e o diálogo entre as
confissões religiosas. Alguns programas de rádio e televisão se
notabilizam por demonizar a religião dos outros, e divulgar que Deus
condenará quem não seguir tal Igreja ou não obedecer ao pastor de
determinada denominação. O caso mais emblemático de intolerância
religiosa é o de mãe Gilda (Gildásia dos Santos) que no dia 21 de
janeiro de 2000, teve um enfarte fulminante ao presenciar crentes que
se diziam evangélicos, invadirem e destruírem sua casa de culto
(Abassá de Ogum).

Em homenagem à memória de Mãe Gilda, Yalorixá do Terreiro Abassá de
Ogum foi decretado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo
presidente da República no dia 27 de dezembro de 2007, a lei nº.
11.635, que institui o dia 21 de janeiro, como "Dia nacional de
combate à intolerância religiosa". Precisamos reafirmar nesta data
que a diversidade de idéias, convicções e maneiras de agir seja um
dom precioso, e não uma ameaça. Que construíamos comunidades mais
tolerantes, imbuídas do ideal de fraternidade, igualdade e
solidariedade.

O direito é apenas um ponto de partida, toda e qualquer estratégia
destinada a facilitar o entendimento deve dar por meio da educação, a
começar pela educação infantil. Precisamos aprender a conhecer as
diferentes religiões, tradições e culturas, para que os mitos e
distorções possam ser vistos como aquilo que são. "Ninguém nasce
odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda
por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se
podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar." (Nelson Mandela).

* Clever Alves Machado: Graduando Pedagogia pela UNIUBE –
Universidade de Uberaba, Coordenador da UNEGRO/MG, Vice-presidente
Creche Amélia Crispim, 1º Secretário do Movimento de Luta Pró-Creche –
MLPC.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

As Reformas e os 120 Anos da Abolição

por Edson França*

Em 2008 toda reflexão dos governantes, da classe política, da intelectualidade e dos variados setores organizados da sociedade civil sobre o destino a ser projetado ao Brasil tem que dialogar com o resultado dos 120 anos de abolição. Há compreensão de amplos setores de sua incompletude e do vigor do projeto conservador de República, elaborado pela minúscula oligarquia branca que dominava o Brasil em finais do século 19. Não efetivamos o processo de abolição da escravatura.

Mantemos uma das mais acentuadas desigualdades social e econômica do mundo. A população negra está na margem da riqueza produzida pela sociedade brasileira. Temos uma República sem participação do povo, concentradora de poder político e econômico, sem democracia social e com cidadanias violadas. Temos que apoiar uma agenda que redesenhe o cenário descrito, priorizando o desenvolvimento do país, a superação das desigualdades regionais e sociais e a ampliação da democracia.

Continuam na pauta do Planalto e do Congresso Nacional, em 2008, propostas de algumas reformas que podem vir ao encontro dos mais profundos interesses sociais, que beneficie a coletividade, aumente a presença do Estado na economia, rompa com as nefastas distorções oriundas do racismo e contribua para que a qualidade de vida da sociedade brasileira atinja um patamar mais elevado. A agenda dos 120 Anos deve acompanhar o debate das reformas, apresentar propostas e garantir resultados positivos para a demanda anti-racista. Há interesses, intrinsecamente conectados com os anseios da população negra, nas reformas que estão em pauta, de modo que o movimento negro está desafiado a discutir-las. Assim intervirá no novo projeto nacional que pode ser desenhado com as reformas e contribuirá para resolução parcial ou mais estrutural dos grandes problemas nacionais.


Na reforma da educação – prioridade número um para o movimento negro - há necessidade de garantir acesso e permanência universal até o ensino médio a todos brasileiros, ampliar o acesso e permanência ao ensino superior para população negra e pobre, reformular o currículo escolar, de modo que atenda a diversidade cultural que caracteriza a sociedade brasileira, melhorar a qualidade da educação investindo prioritariamente nos profissionais da área. A reforma educacional deve ser a mãe das reformas, pois a educação levará desenvolvimento perene ao país. Um povo que se educa, educa seus governantes e dirige a nação.


A reforma política deve ampliar a participação popular, ampliar a transparência nos procedimentos daqueles que se encarregam da gestão pública, fortalecer os partidos políticos, fortalecer os instrumentos de democracia participativa, ampliar a presença de negro e mulheres nas três esferas de governo - do executivo e legislativo. Há uma histórica e proposital sub-representação de mulheres e negros na política nacional, desde a direção dos partidos aos mandatos eleitorais. Não consolidaremos a democracia brasileira sem a efetiva participação de mulheres e negros no destino da nação. A soma desses segmentos constitui na maioria esmagadora do povo brasileiro, não se desenvolve um país sem seu povo. Hoje há instrumentos formais e informais que usurpa a participação proporcional dessa maioria populacional.


A reforma agrária deve definitivamente romper com o latifúndio, revogar a Lei da Terra de 1854, que tirou do ex-escravo, do negro e do pobre brasileiro o direito a ocupar um pedaço de terra e dela tirarem o sustento de sua família. Regularizar todas as terras quilombolas, mobilizar aqueles que querem terra para trabalhar, privilegiar a pequena e média propriedade levando conhecimentos técnicos, financiamento, infra-estruturas que permita um desenvolvimento seguro. Em 2007 o ápice da luta anti-racista se deu na luta dos quilombolas para efetiva posse e sustentabilidade da terra que ocupam centenariamente. O Decreto Presidencial 4887/03 - estabelece regras para regularização de terras ocupadas por remanescentes de quilombos - continua sofrendo duros ataques da bancada ruralista, anunciando que a peleja entre latifúndio, agro-negócio e grileiro contra os quilombolas está longe do fim, comprovando que quando o governo, na questão racial, sai da retórica e vai para ação efetiva, afloram secretas e inconfessáveis resistências racistas. Daí nosso interesse e a emergência dessa reforma.


Precisamos da reforma urbana, pois a lógica imposta pelos grandes especuladores imobiliários e governos conservadores tem ser superada, na medida em que isolam a massa popular nos cantões periféricos dos municípios sem saneamento básico, transporte, equipamentos sociais, espaços de cultura e lazer. Condição comparável aos batustões que segregavam a população negra da África do Sul no período do apartheid. Apenas interesses egoístas transigem com a forma de ocupação territorial em curso nos grandes e médios municípios brasileiros. Necessitamos de uma reforma urbana para conter a ganância da especulação imobiliária, tirar a população da marginalidade, garantir direito a moradia descente, garantir acesso a serviço público e garantir segurança de todos.


A reforma tributária tem um caráter estratégico para distribuição de rendas e ao combate das desigualdades regionais. Embora a derrota do governo na aprovação da CPMF tenha colocado a reforma tributária na frente da fila, será difícil efetiva-la, pois envolve complexa engenharia política para harmonizar os inúmeros interesses de setores da economia, dos estados, dos municípios e da união. Há tendência de pouco controle social no processo de debate que essa reforma exigirá. Ocorre que sem acompanhamento será uma reforma que atenderá apenas os interesses dos entes federativos, dos banqueiros, do grande empresariado rural e urbano. Devemos exigir que as grandes fortunas sejam progressivamente tributadas e redistribuídas, que a especulação e o rentismo sejam desestimulados, que façamos a escolha da produção e do desenvolvimento econômico justo e sustentável.

No ano corrente a agenda eleitoral para prefeito e vereadores, pela sua característica, permitirá aprofundar essa reflexão e faze-la chegar às entranhas do país. Será um grave erro dos partidos progressistas e dos movimentos sociais permitirem que as reformas seja pauta exclusiva do Congresso, discutidas apenas em Brasília. Necessitamos mobilizar amplos setores da sociedade brasileira e provocar o debate na base da sociedade. Temos que trabalhar para conquistar avanços sociais importantes no ano que o Brasil completa 120 anos de desinstitucionalização da escravidão. Temos que terminar a abolição iniciada formalmente em 1888 e corrigir as imperfeições da nossa República.